"Escrevo-te por que não me entendo." Vivo, e não me corrijo. Na verdade, sinto que é impossível fazer correção, a não ser as gramaticais. "Escrevo-te porque não me entendo." E, se não me entendo, como pretender que você me entenda? Dentro de mim, meu anjo, infelizmente, pulsa algo que talvez eu não saiba direito o que é. Às vezes, bate tão forte que chega a me perturbar, aí então eu surto, enlouqueço, choro e grito. "Acho que vou a psicanalista e ao psiquiatra". - e escrevo; às vezes bate fraco, com um relógio na sala de jantar da casa do avô que não pára, não descansa, a noite todo, o dia todo, bate -e eu escrevo. É um pac, continuo, uma dor, talvez uma lágrima que não escorreu, uma mágoa que não passou, um ciúme, um medo, não sei, não sei. Talvez seja só uma pequena ferida, uma pequena cicatriz; com o tempo há de passar. Causa ou conseqüência? Diagnóstico feito, cadê a cura? Há cura? Infinitas sessões de terapia, lágrimas e gargalhadas, depressões e euforia, trepadas e orgasmos, amor que se vive, que se vai e se volta, sonhos e pesadêlos e lá em baixo, aquela feridinha. Por baixo de tudo, antes, depois e durante, ardendo, pinicando, doendo, corroendo, uma pequena mancha. Insistente passado, presente e talvez futuro, que não consegue limpar, que não consegue apagar, que não se cura. Teimosamente. Mas fazer o que? Afinal, são muitas as imagens: tem uma criança alí no chão e tem gente querendo o mundo bem limpinho, tem muita coisa pra pensar, muita coisa pra digerir, muita confusão, muito tesão, muito ódio, raiva, amor, frustração, desejos... aí, meu amor, é isso. É muita coisa.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
»
feito por amarenaodesistir